Campo Grande - MS, 8 de Fevereiro de 2010

Comportamento
“Sandman”: Punhado de areia sobre os olhos, de Neil Gaiman
Depois de ter seu lançamento semanalmente pela editora Conrad até o ano de 1993, os quadrinhos “Sandman”, a saga do Rei dos Sonhos, estão disponíveis, na íntegra, apenas na internet
sexta-feira, 11 de julho de 2008 17:03:28
  DAIANE LÍBERO

Google/Images

Sandman de Neil Gaiman: cabelos parecidos com de Robert Smith, do The Cure / Google/Images
Sandman de Neil Gaiman: cabelos parecidos com de Robert Smith, do The Cure

O gibi é americano, os quadros característicos, e o traço do desenho possui semelhanças com as tradicionais histórias em quadrinhos de heróis como Super-Homem (DC Comics) e Homem-Aranha (Marvel Comics). Mas a atmosfera, a história, as pinceladas sombrias de cores não-óbvias, e um enredo recheado de uma mescla de folclore, história factual e lendas urbanas, compostos numa trama não-linear, tornam-se reais cada vez que a própria terra dos sonhos parece palpável para os leitores. É o quadrinho “Sandman”, do americano Neil Gaiman, que começou a ser publicado no Brasil em 1989, de acordo com o site nacional do gênero, “Universo HQ”.

Sandman é um herói soturno, nobre e trágico, sua capa é preta e brilhante, e seu elmo lembra uma máscara de gás. Tem muitos nomes. Na mitologia, chamam-no de “Morpheus”. O Sandman das lendas, de onde Gaiman tirou a inspiração, é narrado em histórias, canções e contos antigos como o guardador dos sonhos, que entra sorrateiro na casa das pessoas, e com um punhado de areia que sopra sobre os olhos do ente sonolento, embala suas aventuras oníricas conforme sua vontade.

O Morpheus de Gaiman é um dos sete “Perpétuos”, que não são deuses, mas espécies de entidades antigas que dominam a essência humana. Os irmãos e irmãs de Sandman são: “Destino”, caracterizado com uma capa marrom, que usa um livro nas mãos, e que é cego. “Delírio”, a irmã mais nova dos Perpétuos, sempre presente na vida dos seres humanos. “Desejo”, andrógino, que sempre se envolve em brigas contra Sandman. “Desespero”, irmã gêmea de “Desejo”, que tem em seu reino um espelho para refletir o tédio e a frustração e “Destruição”, que abdicou à sua função de Perpétuo e desapareceu. A “Morte”, irmã favorita de “Sonho” (como Sandman é chamado por seus irmãos e irmãs), e a mais velha, é o oposto do que os seres humanos pensam dela; usa jeans e sorri sempre que precisa levar alguém para seu reino.

Gaiman tece uma história tão bem articulada que nenhum detalhe está ali por mero acaso; é apenas uma ponta solta que se amarrará no futuro. Ou no passado, como no memorável episódio em que Sandman, visitando a terra, encontra William Shakespeare numa taverna, e, num acordo incomum, encomenda a ele duas peças. Uma delas é “Sonho de uma noite de verão”. O senhor dos sonhos traz o próprio reino das fadas para assistir pessoalmente a obra do escritor inglês, selando a estranha bagatela.

No começo da saga, um grupo de ocultistas tenta aprisionar a Morte. Mas quem cai na “rede” é o senhor do reino Sonhar, e assim permanece preso por anos. Seu elmo, sua capa e seu rubi de poder são roubados. Quando os recupera, necessita cruzar o inferno atrás de sua máscara protetora, e, para sair dele ileso, desafia Lúcifer e o humilha diante de todos. Algumas edições depois, ele precisa retornar ao inferno para resgatar uma mulher que condenou à exclusão por dez mil anos. Por vingança, o Demônio lhe entrega a chave do reino e abdica da posição. Começa então uma confraria de todos os Deuses do mundo novo, antigo, demônios do próprio inferno, do reino das fadas, e próprios anjos enviados por Deus, tentando convencer o Mestre dos Sonhos a lhes entregar os domínios trevosos.

Flertando em certos episódios com ícones pop como a Barbie, e outros nem tanto, como Jack o Estripador, além de contracenar numa história com John Constantine, dos quadrinhos Hellblazer, e com heróis da Marvel, como o Lanterna Verde, Sandman desenterra heróis esquecidos, e faz dele mesmo um herói romântico e mórbido. Controlando os sonhos dos seres humanos, tece uma teia inconfundível.

Os traços são milimetricamente combinados com a história. Se fosse um livro, sem figuras, Sandman conquistaria igualmente, por causa da qualidade da história. O grande acerto de seus autores foi combinar o texto com o desenho, e que torna os gibis inesquecíveis. Porém, já são raros: a editora Conrad não imprime mais novas edições das primeiras partes da saga, divididas em 10 partes transformadas em livros, com, ao todo, 75 gibis. Na internet, encontra-se na íntegra, além de algumas edições à parte, que não fazem parte diretamente de Sandman, mas que são pequenas histórias protagonizadas pela Morte. Quem desejar comprar as edições direto na editora, preferível é que se visite o reino dos sonhos, porque impresso, apenas na mão de colecionadores. Sandman espera por todos.

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