RESENHA - “O Poço” e a experiência de voltar do seu fundo

                                                                         Beatriz Meireles

 

Reprodução/Internet
Reprodução/Internet
            Com a pandemia, o hábito de ir ao cinema foi deixado de lado e quem é amante desse ritual se sentiu abandonado. Porém, graças a tecnologia, a gente tem o serviço de streaming com uma imensidão de títulos disponíveis a um toque. O meu escolhido é um original Netflix, feito em 2019 e lançado no final de fevereiro deste ano. O cartaz me chamou atenção, assim como o nome. Então, no segundo dia após sua estreia, já estava eu dando play em “O Poço”.

            Dos filmes recentes a que assisti, esse é o que mais mexeu comigo e um dos poucos que repeti. Na segunda vez, é ainda melhor. O filme espanhol dirigido pelo estreante Galden Gaztelu Urrutia conta a história de um homem chamado Goreng, que acorda em uma prisão vertical chamada de “poço”, com um companheiro de cela mais experiente, que começa a lhe explicar melhor sobre o poço e os seus níveis. Em cada nível, ficam duas pessoas e no meio uma plataforma em que desce um banquete com diferentes comidas e aperitivos.

            A jornada de Goreng é acompanhada por uma trilha sonora que incita dúvida e que já faz você se questionar logo nos primeiros 15 minutos. Como seríamos ali? Resistiríamos ao poço? A plataforma vai avançando conforme os níveis e a comida vai acabando, trazendo a primeira reflexão do filme: a luta por sobrevivência no poço e na sociedade. Não vou me prolongar nas metáforas do filme, pois é um campo minado e corro o risco de soltar um spoiler.

            A estética de “O Poço” é simples por ser um filme que se passa quase em um só lugar, mas tem elementos que provocam as mais variadas sensações. É um filme para pessoas sensíveis e atentas porque cada detalhe compõe a história. O clima escuro com tons azulados e que algumas vezes flerta com o vermelho dá a sensação de igualdade, pois nos sentimos no mesmo nível de Goreng e de seu companheiro.

            É um filme que vai além do óbvio (e se você já viu, provavelmente pode até dar uma risadinha e se você não viu, talvez já tenha visto pelo menos um meme com a palavra). O filme vai nas entranhas, nas profundezas do nosso ser e das nossas certezas. Provavelmente, você vai sair diferente depois dessa experiência.

            É uma imersão ao fundo onde você se pergunta como agiria em cima e embaixo. O ambiente é inóspito, mas provoca uma familiaridade de quem se vê em uma situação como essa, só que na vida real. Não precisamos ir na África para falar de pessoas que passam fome ou falar sobre os mais afortunados na Europa. Está tudo aqui, sob nossos olhos. O caráter é outra questão levantada em “O Poço”. Em uma cena, o companheiro diz que Goreng é do tipo que não vai aguentar quando estiver em cima. Isso é a nossa hierarquia social, o velho ditado “quer conhecer uma pessoa? Dê poder a ela”.

            Sobre o final a internet já está cheia de teorias e analogias para os personagens e o desfecho, mas tenho a minha, elaborada do “simples assim” como é o filme. Um simples que não é ruim, mas por ser simples, não se torna extraordinário. Vale a pena conferir e montar sua própria teoria. Para assistir a “O Poço”, abra a mente e esteja alerta para observar os sinais. E lembre-se: você não é o mesmo depois de sair do poço.

Confira o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UJZRumTCvjg


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