Beatriz Meireles

Reprodução/Internet
Dos filmes recentes a que assisti, esse é o que mais
mexeu comigo e um dos poucos que repeti. Na segunda vez, é ainda melhor. O
filme espanhol dirigido pelo estreante Galden Gaztelu Urrutia conta a história
de um homem chamado Goreng, que acorda em uma prisão vertical chamada de
“poço”, com um companheiro de cela mais experiente, que começa a lhe explicar
melhor sobre o poço e os seus níveis. Em cada nível, ficam duas pessoas e no
meio uma plataforma em que desce um banquete com diferentes comidas e
aperitivos.
A jornada de Goreng é acompanhada por uma trilha sonora que
incita dúvida e que já faz você se questionar logo nos primeiros 15 minutos.
Como seríamos ali? Resistiríamos ao poço? A plataforma vai avançando conforme
os níveis e a comida vai acabando, trazendo a primeira reflexão do filme: a
luta por sobrevivência no poço e na sociedade. Não vou me prolongar nas
metáforas do filme, pois é um campo minado e corro o risco de soltar um spoiler.
A estética de “O Poço” é simples por ser um filme que se
passa quase em um só lugar, mas tem elementos que provocam as mais variadas
sensações. É um filme para pessoas sensíveis e atentas porque cada detalhe
compõe a história. O clima escuro com tons azulados e que algumas vezes flerta
com o vermelho dá a sensação de igualdade, pois nos sentimos no mesmo nível de
Goreng e de seu companheiro.
É um filme que vai além do óbvio (e se você já viu,
provavelmente pode até dar uma risadinha e se você não viu, talvez já tenha
visto pelo menos um meme com a palavra). O filme vai nas entranhas, nas
profundezas do nosso ser e das nossas certezas. Provavelmente, você vai sair
diferente depois dessa experiência.
É uma imersão ao fundo onde você se pergunta como agiria
em cima e embaixo. O ambiente é inóspito, mas provoca uma familiaridade de quem
se vê em uma situação como essa, só que na vida real. Não precisamos ir na
África para falar de pessoas que passam fome ou falar sobre os mais afortunados
na Europa. Está tudo aqui, sob nossos olhos. O caráter é outra questão
levantada em “O Poço”. Em uma cena, o companheiro diz que Goreng é do tipo que
não vai aguentar quando estiver em cima. Isso é a nossa hierarquia social, o
velho ditado “quer conhecer uma pessoa? Dê poder a ela”.
Sobre o final a internet já está cheia de teorias e
analogias para os personagens e o desfecho, mas tenho a minha, elaborada do
“simples assim” como é o filme. Um simples que não é ruim, mas por ser simples,
não se torna extraordinário. Vale a pena conferir e montar sua própria teoria.
Para assistir a “O Poço”, abra a mente e esteja alerta para observar os sinais.
E lembre-se: você não é o mesmo depois de sair do poço.
Confira o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=UJZRumTCvjg
