Entre Gerações: Mulheres redesenham a sucessão e o protagonismo no Agronegócio

 Da gestão familiar à inovação, novas gerações de mulheres começam a ocupar espaços estratégicos no campo e ajudam a redefinir quem estará à frente dos negócios rurais nas próximas décadas

Por Angelica Sigarini

O futuro de uma propriedade rural ou de uma empresa familiar nem sempre começa quando chega o momento de transferir a gestão. Muitas vezes, ele começa ainda na infância, nas visitas à fazenda, nas conversas à mesa, no contato com os animais, nas perguntas sobre o trabalho dos pais e na possibilidade de enxergar naquele universo um caminho profissional.

Por gerações, a sucessão no campo esteve frequentemente associada aos filhos homens. Essa lógica, porém, começa a mudar. Mulheres passam a ocupar posições de gestão, assumir empresas familiares e participar diretamente das decisões que determinam os rumos dos negócios rurais.

Mayanna Adames conhece essa transformação por dentro.


Em acompanhamento técnico no campo. (Foto: arquivo pessoal)
Em acompanhamento técnico no campo. (Foto: arquivo pessoal)

Ela é a oitava geração de agricultores de sua família e a primeira mulher a ocupar esse lugar na história familiar. Seu pai fundou a Ipiranga e, agora, Mayanna vive o processo de sucessão da empresa.

A transição não acontece de uma hora para outra.

“Sou a oitava geração de agricultores da minha família e a primeira mulher. Meu pai fundou a Ipiranga, e agora estou assumindo a empresa. É claro que estou passando pelo processo de sucessão, o que é algo demorado.”

A formação profissional também faz parte desse caminho. Mayanna possui MBA em Gestão de Negócios e, há cinco anos, atua no time de Marketing e Desenvolvimento de uma sementeira. A experiência profissional se soma à vivência familiar e ajuda a construir uma sucessão baseada não apenas no vínculo de sangue, mas também em conhecimento e preparação.

Quando a filha diz que quer seguir o caminho do pai

Ao lados dos pais ela leva o legado da famíllia com propriedade (Foto: arquivo pessoal)


Antes de chegar ao processo de sucessão, Mayanna precisou enfrentar uma resistência dentro da própria família. Quando decidiu cursar Agronomia, seu pai não apoiou a escolha.

“Meu pai foi uma pessoa que, por exemplo, quando eu disse que queria fazer Agronomia, não me apoiou. Mas, quando cheguei ao primeiro semestre, já estava muito animada.”

A reação do pai estava relacionada, segundo Mayanna, a experiências que ajudaram a construir uma visão mais cautelosa sobre a presença feminina no setor. Ela se lembra, por exemplo, de uma situação em que uma vendedora de adubo chegou à empresa chorando depois de relatar ter sido assediada por um cliente dentro de uma colheitadeira.

Para Mayanna, episódios como esse ajudam a compreender por que algumas famílias ainda demonstram preocupação quando uma filha decide entrar no agronegócio.

“Acredito que há um certo preconceito nessa questão; não é que a mulher não seja capaz, mas existe um medo e um tipo de proteção que eu diria que ainda persiste.”

A trajetória dela, entretanto, mostra uma mudança acontecendo na prática. A mulher que chegou à Agronomia contrariando inicialmente a expectativa do pai hoje se prepara para assumir uma empresa construída por sua família ao longo de gerações.

O campo também está mudando de geração

Mayanna percebe essa transformação não apenas dentro de sua família, mas também no cotidiano do setor. Para Mayanna, essa presença começa a deixar de causar estranhamento.

“Percebo que essa mudança está se tornando extremamente natural, e as famílias estão se adaptando a isso.”

Essa mudança também aparece na forma como as famílias começam a pensar sobre sucessão.

“Elas estão incentivando a sucessão familiar, não vendo mais isso como algo que precisa ser necessariamente ligado a ter um filho homem.”

A percepção encontra correspondência nos dados do Censo Agropecuário 2017. Naquele levantamento, 946.075 mulheres apareciam como responsáveis pela direção de estabelecimentos agropecuários no Brasil. Elas representavam 18,7% dos produtores responsáveis pela direção dos estabelecimentos, percentual superior aos 12,7% registrados em 2006.

Quando a sucessão se torna uma escolha

A história de Maria Augusta Alonso apresenta outro caminho. Antes de assumir responsabilidades na gestão dos negócios da família, ela cresceu cercada pelo campo.  Os animais, as propriedades, as conversas sobre produção e os negócios da família fizeram parte de sua história muito antes de ela imaginar que, um dia, precisaria assumir responsabilidades sobre eles.

“Sempre vivi no agro, nas fazendas, mexendo com cavalo, com boi, no curral, na cocheira.”

 

Guta Alonso é referência nas áreas genética
bovina e equina (Foto: @zznperes)

A Medicina Veterinária veio como escolha profissional. Depois, vieram a especialização e o doutorado em Reprodução Animal pela Universidade de São Paulo. Aos 33 anos, depois da morte do pai, Maria Augusta assumiu a gestão dos negócios da família. 

A sucessão, nesse caso, chegou acompanhada por uma mudança pessoal profunda. A filha que conhecia a fazenda passou a ocupar também o lugar de quem precisava tomar decisões sobre o negócio. 

Hoje, à frente da seleção de Nelore PO da família em Mato Grosso do Sul e envolvida com a reprodução equina, ela reúne formação acadêmica, experiência profissional e conhecimento construído desde a infância.

Mas sua visão sobre sucessão vai além da permanência da família no negócio.

Continuar não significa repetir

Ao lado do pai, em um registro que representa a história
e a tradição da família no campo. (Foto: Arquivo Pessoal)


Para Maria Augusta, transmitir a história da família para a próxima geração não significa determinar o caminho que os filhos deverão seguir. Ela lembra que já ouviu pessoas lamentarem quando um filho escolhe uma profissão diferente daquela construída pela família.

“Eu acho que a gente está errado quando pensa que os filhos têm que seguir o que a gente escolheu. O que eu faço com a minha filha é mostrar para ela a minha vida. Se isso for escolha dela, perfeito. Mas, se não for, ela não tem que ficar presa à minha escolha.”

A liberdade de escolha, para ela, também faz parte de uma sucessão saudável.

“Se um dia ela quiser ser veterinária, pecuarista, eu vou estar aqui para ela. Mas, se ela falar: ‘Mamãe, eu não quero isso para a minha vida’, então está tudo certo.”

Sua própria família apresenta diferentes relações com o campo. Maria Augusta conta que sua irmã é uma pessoa urbana e não gosta da fazenda. A fala, contada com humor, revela uma questão importante: a continuidade de uma família rural não precisa depender de todos os seus integrantes desejarem a mesma vida. Para Maria Augusta, o papel dos pais é apresentar esse universo.

“O que a gente tem que fazer é mostrar o mundo que a gente vive, gostar dele e não ficar só reclamando.”

Mulheres que sustentam histórias

A presença feminina na sucessão também aparece em outro aspecto destacado por Maria Augusta: o papel de mães e avós na construção dos vínculos entre as gerações.

“Eu vejo muitas avós e muitas mães que vão para as fazendas, levam os netos, os filhos. Elas estão junto aos maridos, junto às pessoas que realmente tocam a fazenda, e têm esse carinho pela propriedade, pela história da família.”

Esse trabalho nem sempre aparece nas estatísticas da produção, mas participa da construção da memória familiar e da relação das novas gerações com o campo. Na pesquisa sobre mulheres no agronegócio que fundamenta esta reportagem, as trajetórias analisadas mostram mulheres ocupando espaços de gestão, tomando decisões, buscando formação e participando de redes profissionais e institucionais.

A atuação feminina aparece relacionada à administração financeira, ao planejamento, à gestão de pessoas, à comunicação, às relações com fornecedores e parceiros e à tomada de decisões. Também aparecem iniciativas voltadas à formação de jovens, como Famasul Jovem e Jovens do Agro, com ações relacionadas à liderança, representação, desenvolvimento pessoal e gestão.

A sucessão, portanto, não se resume à passagem de uma propriedade de uma geração para outra. Ela envolve formação.

Maria Augusta também chama atenção para outro desafio das empresas familiares: a necessidade de profissionalizar a gestão.

“É fazer as coisas funcionarem mais como empresa e menos como uma coisa lastreada na nossa figura pessoal, porque isso é muito aprisionante.”

A observação dialoga com os resultados da pesquisa, que apontam a importância da gestão financeira, do planejamento dos investimentos, da avaliação de riscos e da administração de pessoas para a sustentabilidade dos negócios rurais.

A propriedade pode ter uma história familiar, mas precisa funcionar também como negócio. Essa preparação é especialmente importante quando se pensa na sucessão. Quanto mais decisões, conhecimentos e processos estão concentrados em uma única pessoa, maior pode ser a dificuldade de transferir a gestão para a geração seguinte.

Por isso, preparar sucessores também significa compartilhar conhecimento.

Um agro feito por pessoas

As histórias de Mayanna e Maria Augusta acontecem em momentos diferentes, mas se encontram em um mesmo ponto: a transformação do papel da mulher no agronegócio. 

Mayanna representa uma sucessão que está acontecendo agora, dentro de uma empresa construída por oito gerações de sua família. Já Maria Augusta representa uma sucessão que chegou de maneira inesperada e exigiu que ela transformasse sua relação com o negócio familiar.

Uma fala sobre a necessidade de cultivar o interesse pelo campo desde a infância. A outra defende que esse interesse precisa existir sem transformar a escolha em obrigação.

São perspectivas diferentes sobre uma mesma questão: como fazer com que uma história familiar continue sem impedir que a próxima geração escreva a própria história?

E, antes de falar em continuidade, é preciso compreender que cada nova geração terá seus próprios caminhos.

Mayanna está assumindo a empresa que sua família construiu ao longo de oito gerações. Maria Augusta escolheu permanecer no campo depois de construir sua trajetória acadêmica e profissional.

Duas mulheres, duas histórias e duas formas de chegar ao mesmo ponto: um agronegócio em que a sucessão deixa de ser determinada apenas pelo gênero e passa a ser construída pelo conhecimento, pelo vínculo e pela escolha.