Criatividade, expressão e autonomia pelo empreendedorismo feminino.

As trajetórias de três jovens profissionais mostram como tatuagem, nail art e produção de conteúdo se tornaram caminhos de autonomia, identidade e afirmação no mercado criativo. 
Por: Kíria Chagas

(foto: Kíria Chagas)


Em um discurso sobre sua trajetória como escritora, Virginia Woolf coloca em questão o lugar da mulher e a construção da própria identidade.


“Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar. E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês estão exercendo pela primeira vez?”


Os números mostram que algo mudou desde então. O empreendedorismo feminino atingiu um marco histórico no Brasil no quarto trimestre de 2024, com 10,35 milhões de mulheres à frente de algum tipo de negócio. Depois de quatro anos consecutivos de queda, 2024 registrou uma virada: as mulheres voltaram a crescer entre os empreendedores iniciais e chegaram a 46,8% do total, segundo o Sebrae. Mais da metade desses negócios está no setor de serviços, que concentra 56,8% das empreendedoras, seguido do comércio, com 25,1%.


Durante séculos, a independência financeira feminina foi limitada ou simplesmente invisibilizada. Hoje, profissões ligadas à estética, à arte e à produção digital representam mais do que renda: são caminhos de autonomia e construção de identidade


Para a tatuadora Ágata Sigarini, trabalhar em uma área ainda dominada pela presença masculina significava provar competência o tempo todo, sem abrir mão da própria identidade artística


“Eu e várias outras artistas ouvimos muitas vezes que certos tipos de desenho “não funcionavam” na tattoo, então uma parte muito importante pra mim foi não desistir da minha estética artística por causa disso e invés de abandonar o que eu gostava de fazer, eu fui estudar formas de fazer aquilo funcionar da melhor maneira possível”, conta. 


Durante muito tempo, adaptar a própria estética parecia o único caminho para ser aceita, mesmo que isso contradissesse sua visão artística. A mudança começou quando viajou para São Paulo e entrou em contato com artistas que a incentivaram a enxergar a tattoo de outra forma.


“Foi lá que eu perdi o medo”, relembra. “Eu lembro exatamente de um dia em que eu estava tatuando e pensei: ‘meu Deus, eu quero passar o resto da minha vida fazendo isso.’”


Aos poucos, a construção de processos próprios, usando referências, técnicas e estilos que realmente conversassem com sua identidade, se tornou mais concreta.


(foto: Thalita Marques)


Atualmente, as mulheres estão mais presentes nesse ramo, com mais liberdade criativa. Entretanto, os empecilhos se remodelaram com os avanços sociais e tecnológicos. A presença digital se tornou um fator importante para garantir espaço profissional e isso impacta diversas áreas. 


Para a nail designer Brenda Agnes, as redes sociais também influenciaram diretamente a forma como enxergava a própria profissão e identidade visual.


Filha de manicure, Brenda começou a trabalhar na área durante a pandemia, enquanto tentava conciliar a graduação em Ciências Sociais com a necessidade de renda. Depois de meses em um salão, decidiu recomeçar do zero no espaço da mãe, investindo nas próprias ferramentas e construindo, aos poucos, sua própria clientela.


Apesar da independência conquistada, a sensação de precisar se encaixar em determinados padrões ainda aparecia com frequência.


“Quando comecei, eu achava que precisava ser ‘clean girl’, usar terninho, ter um espaço minimalista”, relembra. “Mas eu sabia que aquilo não fazia sentido pra mim.”


(foto: Kíria Chagas)

Aos poucos, Brenda passou a abandonar referências que não conversavam com sua personalidade e transformou a nail art em um espaço de expressão criativa e autenticidade. Essa postura cativou clientes que buscavam algo além das unhas convencionais.


Tanto Brenda quanto Ágata acreditam que a comparação faz parte do processo, mas não deve paralisar. O crescimento artístico implica mudança: no olhar, no fazer, em quem se é.


Nesse cenário, a modelo e influenciadora Julia Raika encontrou na imagem e na presença digital uma porta de entrada para o mercado profissional. O início aconteceu através de parcerias com maquiadores e cabeleireiros como modelo beauty, até que passou a se profissionalizar cada vez mais no meio comercial e fashion.


(foto: reprodução online)


Apesar de reconhecer que entrar cedo na profissão acelerou seu amadurecimento, Julia conta que a pressão estética e a comparação constante fazem parte da rotina de quem trabalha diretamente com a própria imagem.  “Eu sofro bastante com comparação”, afirma. “Principalmente em relação à ‘magreza ideal’ e a carreiras e sucessos que eu gostaria de atingir.”

Em um mercado onde a própria aparência também se transforma em ferramenta de trabalho, mostrar individualidade nem sempre é simples. Segundo ela, existe uma pressão constante para se manter a mais neutra e padrão possível


A necessidade de moldar personalidade, estética e comportamento para acessar determinados espaços ainda faz parte da experiência de muitas mulheres jovens inseridas na economia criativa. Ainda assim, Julia acredita que independência também está ligada à capacidade de estabelecer limites e preservar a própria dignidade dentro da profissão.


“Não é necessário vender sua dignidade ou sua credibilidade para acessar determinados espaços”, diz. “Quem não te aceita ou te discrimina é apenas uma pedra num caminho muito longo a ser trilhado.”


As "pedras no caminho" mencionadas por Julia ecoam, de certa forma, as rochas e fantasmas de que Virginia Woolf falava no século passado. As profissões se transformaram, o ambiente digital expandiu as fronteiras e a autonomia financeira se tornou uma realidade palpável para Ágata, Brenda e Julia. 


A trajetória delas sugere que a independência financeira só é plena quando vem acompanhada da maior de todas as liberdades: a de ser autêntica.