Artesanato autoral e soluções ambientais mostram como empreendedoras vêm ampliando as oportunidades econômicas em um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil
Por Douglas Vieira
Quando decidiu deixar para trás a rotina do serviço público e apostar no artesanato, Sueli Alves Barbosa da Silva não tinha certeza de que daria certo. Os primeiros trabalhos eram simples: barrados para panos de prato produzidos dentro de casa. Aos poucos vieram encomendas de nécessaires, estojos e peças personalizadas. O espaço ficou pequeno. O negócio cresceu.
Hoje, a artesã mantém uma loja em Bonito e recebe pedidos de diferentes regiões do país. Muitos clientes chegam depois de visitar a cidade e levam para casa lembranças personalizadas com fotografias feitas durante os passeios turísticos.
A trajetória de Sueli acompanha uma transformação silenciosa que vem ocorrendo em Bonito. Conhecida pelas águas cristalinas e pelas atividades de ecoturismo, a cidade também tem se consolidado como ambiente para pequenos negócios que encontram no turismo uma oportunidade de crescimento.
Dados do Anuário Estatístico do Turismo de Bonito 2025, elaborado pelo Observatório do Turismo e Eventos de Bonito (OTEB), mostram que o município recebeu 293.712 visitantes ao longo do último ano e registrou 880.669 visitações em atrativos turísticos. O fluxo constante de turistas movimenta hotéis, restaurantes, agências e uma ampla rede de empreendedores locais.
Para Matheus Oliveira, gerente da Regional Oeste do Sebrae/MS, o turismo exerce um papel fundamental na distribuição de renda e no fortalecimento dos pequenos negócios da cidade.
‘’Quem visita Bonito consome produtos e serviços de diferentes empreendimentos durante a estadia. Hotéis, restaurantes, agências, mercados, lojas e diversos outros negócios acabam sendo beneficiados por essa movimentação’’, afirma.
Segundo ele, mais de 80% dos empreendimentos que atendem esse fluxo de visitantes são pequenos negócios, o que faz do turismo um dos segmentos mais democráticos da economia local.
Nesse cenário, o protagonismo feminino ganha destaque. Segundo levantamento divulgado pelo Sebrae/MS, as mulheres representam 36,9% dos proprietários de negócios em Mato Grosso do Sul, percentual superior à média nacional.
Antes de abrir a própria loja, Sueli buscou orientação para entender melhor o mercado e planejar o crescimento da empresa.
“Eu tinha medo de não dar conta. Fiz todo um estudo junto com o Sebrae, porque sozinha eu não conseguiria.”
Hoje, aposentada, ela dedica todo o tempo ao negócio que construiu.
“O diferencial é porque os meus produtos são personalizados. Sou eu mesma que crio as estampas e não vendo para outras pessoas reproduzirem. É tudo muito exclusivo.”
Transformar um problema em oportunidade
Se Sueli encontrou no turismo um mercado para suas criações, a empreendedora Lívia Cordeiro enxergou uma oportunidade em outro desafio da cidade com o aumento da geração de resíduos provocado pela atividade turística.
A ideia surgiu a partir de uma inquietação simples. Em uma cidade reconhecida pela preservação ambiental, toneladas de resíduos orgânicos continuavam tendo como destino aterros e lixões. Foi dessa observação que nasceu a Ciclo Azul.
Criada em Bonito por meio do Programa Centelha, a startup desenvolve soluções de gestão ambiental para empresas ligadas ao turismo.
O trabalho começou em pequena escala, por meio de um projeto comunitário de compostagem. Com o passar dos anos, a iniciativa cresceu e passou a atender hotéis, restaurantes e outros empreendimentos turísticos.
Hoje, cerca de 30 toneladas de resíduos orgânicos são reaproveitadas mensalmente pela empresa. “A questão ambiental consegue passar por todos os níveis da empresa. O material recolhido deixa de seguir para aterros e passa pelo processo de compostagem. Depois, retorna ao solo na forma de adubo utilizado em hortas, jardins e projetos de recuperação ambiental”, explica.
Além da coleta, a startup desenvolveu um sistema próprio de rastreabilidade para acompanhar todas as etapas do reaproveitamento dos resíduos.
A empresa também auxilia empreendimentos interessados em certificações ambientais. Entre os casos acompanhados está o restaurante Bacuri, reconhecido como o primeiro restaurante lixo zero de Mato Grosso do Sul.
Crescer sem abrir mão da conservação
O crescimento desses negócios ocorre em um contexto em que Bonito busca equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
Durante o Inspira Ecoturismo realizado pelo Sebrae/MS, realizado no município, representantes do setor defenderam que a conservação da natureza deve ser encarada também como uma estratégia de desenvolvimento.
“Quanto mais intacta a natureza, mais valorosa ela é, com mais geração de emprego e renda ela consegue conectar com a comunidade”, afirmou a secretária executiva de Meio Ambiente da Semadesc, Ana Cristina Trevelin.
A vice-prefeita e secretária municipal de turismo e desenvolvimento econômico de Bonito, Juliane Salvadori, destacou que os atrativos turísticos da cidade operam atualmente com cerca de 11% a 12% da capacidade disponível. Segundo ela, o dado demonstra que ainda existe espaço para ampliar o fluxo de visitantes sem necessidade de expandir áreas de exploração turística.
A avaliação também é compartilhada pelo Sebrae. Segundo Matheus Oliveira, Bonito ainda possui margem para ampliar a atividade turística dentro dos limites já estabelecidos para os atrativos, permitindo que novos negócios continuem surgindo sem comprometer os recursos naturais que sustentam a economia local.
As trajetórias de Sueli e Lívia mostram que o empreendedorismo em Bonito vai além da abertura de novos negócios. Em uma cidade que construiu sua reputação sobre a preservação ambiental, elas encontraram formas diferentes de transformar oportunidades em renda, inovação e desenvolvimento.
Enquanto uma leva para os visitantes lembranças exclusivas da experiência vivida na cidade, a outra ajuda empresas a reduzir impactos ambientais e fortalecer práticas sustentáveis. Histórias que reforçam uma característica cada vez mais presente em Bonito: a de que preservar a natureza e gerar desenvolvimento econômico podem caminhar lado a lado.





