Por Angelica Sigarini
O domingo chega diferente.
Antes mesmo do café, o celular já está cheio de fotografias. Pais abraçando filhos. Filhos pequenos nos ombros. Fotografias antigas recuperadas da gaveta. Declarações de amor acompanhadas de palavras sobre presença, exemplo, proteção e saudade.
É Dia dos Pais.
Para muita gente, um domingo feliz. Para outras pessoas, talvez seja apenas um domingo que precisa passar. Porque há datas que chegam acompanhadas de festa e, sem pedir licença, abrem gavetas que passamos o restante do ano tentando manter fechadas.
Há quem olhe uma fotografia e sorria. Há quem olhe e chore e até quem sinta repulsa. Há quem tenha um pai para abraçar. Há quem tenha apenas lembranças. Há quem sinta saudade de alguém que partiu cedo demais. Há também quem tenha um pai vivo, mas conheça profundamente o significado da ausência.
E existem histórias ainda mais difíceis de colocar em palavras.
Pais e filhos que se perderam pelo caminho. Relações interrompidas. Silêncios acumulados durante anos. Afetos que existiram, mas não souberam encontrar uma forma de permanecer. Há quem tenha esperado por uma presença que nunca chegou. Há quem tenha aprendido, muito cedo, a não esperar.
Talvez por isso algumas datas façam tanto barulho dentro da gente. Enquanto o mundo parece dizer que todos deveriam comemorar, algumas pessoas estão apenas tentando atravessar o dia.
Talvez por isso o Dia dos Pais também nos peça sensibilidade. Sensibilidade para entender que nem todo silêncio é indiferença. Que nem toda ausência significa falta de amor. Que algumas saudades ainda doem, algumas relações deixaram marcas e algumas histórias simplesmente não cabem em uma fotografia acompanhada de uma bonita declaração.
Não sabemos o que essa data desperta em quem está ao nosso lado.
Para alguém, pode ser o abraço esperado durante o ano inteiro. Para outro, a lembrança de um abraço que nunca mais poderá acontecer. Pode ser celebração, saudade, conflito, ausência ou até a lembrança de algo que se gostaria de ter vivido e não aconteceu.
E está tudo bem se não houver fotografia para publicar. Está tudo bem se a homenagem for silenciosa. Está tudo bem sentir saudade. Sentir tristeza. Sentir amor e mágoa ao mesmo tempo. Ou simplesmente não querer falar sobre isso.
As relações humanas raramente cabem nas frases bonitas que escrevemos nos cartões. Por isso, talvez o cuidado esteja nas pequenas coisas: não exigir alegria, não fazer perguntas que possam constranger, não comparar histórias e, principalmente, permitir que cada pessoa atravesse esse dia à sua maneira.
Celebre se houver motivos para celebrar. Abrace, telefone, diga que ama enquanto houver tempo.
Mas olhe com carinho também para quem estiver mais quieto. Algumas pessoas vão comemorar. Outras vão recordar. E algumas estarão apenas tentando passar pelo domingo.
Que, entre tantas homenagens, também haja espaço para a sensibilidade.

